Nós e Eles

Por que o problema não está em sair de mini saia?

29/05/2016 • 0 Comentários

O amigo é pai de uma menininha linda que hoje só tem um ano e meio. Mas em uma conversa regada a vinhos, pães e pautas polêmicas ele me disse que desde cedo cuidará para que a filha saiba onde deva usar suas mini saias.

Então eu lhe disse que desde cedo cuidarei para que meus filhos respeitem devidamente as menininhas, para que a filhinha dele nunca precise se preocupar onde deve usar suas mini saias.

Volte vinte dias.

Meu filho de seis anos entra no carro depois da aula contando que os amiguinhos estavam olhando as calcinhas das menininhas e bisbilhotando quando elas iam ao banheiro. Mas eu não, mamãe, eu juro que eu não.

Respiro fundo, imagino que deve mesmo ser “natural” nessa idade esse interesse, mas duvido se o jeito como sempre lidamos e como os orientamos em relação à exteriorização desse interesse ainda deva ser considerado “natural”. E antes de prosseguir a conversa já aviso que acredito que ele não estava olhando mas pergunto se ele tentou impedir que os amigos fizessem algo que ele não achava legal. Seu silêncio indicou a resposta. Omissão.

Perguntei o que ele faria se a menininha fosse a mamãe. Ele disse que não deixaria os amigos fazerem isso. Sugeri então que ele sempre se lembre que a menininha poderia ser a mamãe.

Adiante vinte dias.

Ao contar a história para o amigo que tem a filhinha que deve aprender quando usar sua saia curta ele achou que exagerei. Que é mesmo “normal” que o menininho queira ver a calcinha da menininha. Concordei. Que era normal querer ver, mas que não deveria mais ser normal que nós achássemos banal que ele efetivamente se valha de artimanhas ou truques para vê-la.

Eu sei que para nós que somos legais e divertidos e gostamos de uma bagunça e de um sarro aqui e de uma zoação ali e de uma brincadeirinha para deixar o difícil da vida mais leve, possa parecer que esses ecochatos estejam querendo deixar tudo politicamente correto demais. E que quando o papa-léguas explodia o coiote ou que quando o pica-pau sempre aprontava sem nunca se dar mal era muito mais legal do que a lição de moral dos desenhos do canal infantil atual.

Mas o problema é que a gente até pode ter dado certo e o irmão que forçava sutilmente a menininha a mostrar a calcinha não virou um estuprador. Mas isso não significa que não exista a cultura do estupro e o machismo opressor. Daí porque o que parece normal esconde a omissão usual que muitas vezes ajuda a promover um grande mal. E se de um lado há os simples e inocentes menininhos a olhar pela fechadura a menininha e sua calcinha no banheiro, de outro, surgem em algum momento no futuro criminosos que violam coletivamente o corpo e a mente de uma adolescente.

Homens, pais, meninos, não se omitam. Suas filhas não precisam ter vergonha da saia que usam, são os nossos filhos que devem ter vergonha de achar que a escolha da menina pela saia é a culpada por ser ela estuprada.

E se ainda assim achar que esse é mais um texto de uma ecochata feminista, lembrem que para muitos homens de determinada religião ou cultura a calça jeans que eu uso é coisa de mulher impura. Para eles, eu, sua esposa, sua mãe e sua filha somos puta simplesmente por não usarmos burca.

Reflitamos. Evoluamos. Melhoremos. Os reflexos, provavelmente, não veremos, mas por nossos netos ou, quiçá, bisnetas lembrados com gratidão seremos.

por_que_o_problema_nao_esta_em_sair_de_mini_saia

Patrícia
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