Nós e Eles

Mulheres. Por que ainda somos machistas?

05/03/2017 • 0 Comentários

Tenho amiga recatada, amiga agitada, amiga animada, amiga mais calada, amiga casada, amiga que tem namorada, amiga que só vive na balada, amiga que não curte britada, amiga que só dorme com o moço se está apaixonada, amiga que logo que bate a química passa junto a noitada.

Tenho amiga que já se libertou dessa mania que o mundo tem de lhe dizer o que ela pode ou não ser e/ou fazer. Tenho amiga que ainda não conseguiu entender que ela pode ser e/ou fazer o que bem quiser. Porque, de fato, em um mundo cheio de narizes a se entortar, dependendo de complexos de rejeição ou necessidades de aceitação é difícil mesmo compreender e se desprender.

E como todos os dias são nossos (porque se a gente pára isso aqui que chamam de sociedade, vai tudo para o vinagre), mas criaram um dia nessa semana para falarmos sobre isso, falemos.

Por isso hoje a reflexão vai, especialmente, para as amigas que ainda não se libertaram. Que ainda não compreenderam que elas podem ser o que quiserem, como quiserem. Que elas podem vestir o comprimento de saia que melhor lhes aprouverem, que elas podem dançar ou se movimentar ou se relacionar como bem entenderem, porque se o outro não entendeu ou mal compreendeu o problema é dele e não seu.

É que essas amigas amadas ainda não perceberam como foram, desde meninas pequenas, reprimidas, limitadas e desestimuladas a não se conhecerem bem, a não se tocarem, a não se amarem, porque ali, desde cedo, elas foram ensinadas, sutil ou escancaradamente, que menina de família, aquela boa para casar, é só a recatada.

Ah! Mas não foi assim na minha casa. Lá eu sempre tive liberdade! Estudei, fiz faculdade! Será? Então, minha amiga… o problema é que muitas vezes esse formato de limitação vem sutilmente, quase imperceptivelmente. Aliás, sem que percebam, muitas vezes, os próprios pais. É só você lembrar que quando éramos adolescentes, no auge do florecer de nossos hormônios e curiosidades, formos orientadas a preservar a virgindade até conhecer um menino-legal-de-verdade. E então, cada vez que o amasso estava gostoso, você tinha que parar a mão do menino indo para a bunda, para ele não achar que você era vagabunda. Ou, pior, para que ele não saísse por aí contando para todo mundo que chegou lá. Sabe-se lá onde era esse lugar e se tinha mesmo ali chegado.

Então, hoje estamos aqui para falar sobre isso. Sobre o que achamos tão normal e, na real, não faz o menos sentido, a não ser manter esse mundão nos oprimindo sem que a gente sequer se dê conta disso. Afinal, é normal. Será?

E para não criar estigmas equivocados de quem ainda não compreende bem as palavras e seus significados, não vamos usar a palavra feminismo. Vamos falar em humanismo. Assim, talvez trocando o termo pode ser que os mal entendidos compreendam, de uma vez por todas, que não queremos tratar como inimigo o amigo, o namorado ou o marido. Ao contrário! Amamos os amigos, queremos ter namorado ou marido, ou não queremos. Sim! Porque há várias de nós que simplesmente não querem ter a nossa vida-padrão, querem ter a delas sem que com isso os narizes lhes entortem tentando entender o porquê ela não quer casar e ter filhos! Porque, cará-pálida, ela quer viver em outros formatos, andando sobre outros trilhos.

E para que se tente fazer compreender isso tudo, partiremos da fundamental e esquecida premissa de que SER é diferente de FAZER. Oi? Explico: SER é só seu. Você, essa pessoa que mora aí dentro desse corpo que a gente vê, mas que sente coisas que nenhum outro pode entender. SER não interfere em ninguém mais a não ser em você.

Ah! Mas o jeito que ela É me incomoda! Bom… aí o problema é seu e não dela. E só passará a sê-lo quando ela efetivamente FIZER algo para você. Por isso, o que o umbigo alheio É não lhe importa até que ele decida lhe FAZER alguma coisa que lhe cause efetivo dano.

E nesse complexo paradoxo do SER x FAZER, sei que vão vários anos até que se compreenda isso de forma clara, para valer. Mas se hoje olhamos com repulsa e horror o passado da escravidão, quem sabe em um futuro não tão distante, de uma próxima geração, também não compreenderão porque nós, ainda hoje, nos importamos tanto com o que as outras SÃO, ou com o tanto que queremos ser e deixamos de fazer com medo do que os outros pensarão.

E voltando à nossa reflexão, enquanto nós, eu, você e a amiga, não compreendermos o tanto que ainda precisamos nos libertar de um imposto padrão de comportamento feminino, continuaremos assim, achando que aquilo que foi feito está tudo bem, desde que seja pelo menino. Ou achando que quem mostra muito a bunda ou o peito não merece respeito. Ou tendo a certeza de que não é moça-de-família ou não é digna do meu filho aquela que faz o que quer, que sai com quem está com vontade, que dorme com quem lhe acende a química do corpo, que escolhe o quanto quer mostrar dele ao se vestir.

Infelizmente eu não tenho filhas para libertar, mas felizmente tenho meninos para criar. E agora cheguei aonde quero chegar: mães, precisamos de nós para fazer essa geração se libertar. A das meninas para serem o que quiserem e a dos meninos para entenderem isso de uma vez por todas e, sobretudo, para apoiarem a amiga, a namorada ou a mocinha com quem eles só querem trocar nudes ou beijos ou se deliciar nos lençóis. Apoiá-la a ser quem ela quiser e a fazer com ele o que os dois quiserem, segura na parceria, porque ela não será mais mal compreendida ou delatada aos amiguinhos como vadia.

Sim. Essa reflexão de hoje é progressista e libertária. Porque é nisso que acredito para que nossa incrível humanidade se cure de sua doentia hipocrisia e seja, algum dia, ali no futuro, verdadeiramente igualitária.

E para finalizar, como ainda temos essa maldita mania de rotular e estigmatizar coisas, palavras e, pior, pessoas, agora você entendeu porque  hoje sugeri trocarmos a palavra feminismo por humanismo. Porque se somos diferentes biológica e humanamente, só queremos ser iguais, socialmente. É só isso.

Quem sabe assim, começam a nos entender, efetivamente.

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Patrícia
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