Corpo e Mente e Alma

O que(m) você quer ser quando crescer?

22/01/2016 • 0 Comentários

– O que você quer ser quando crescer?
– Ela.
– Hein?
– É. Ela ali, ó. Ela ali com aquela barriga, aquela perna, aquela bunda. Aquele cabelo. Adoro o cabelo. E você, o que quer ser?
– Quero ser Livre.
– Hein?
– É, Livre. Quero escolher minha barriga, minha perna e minha bunda. Também quero escolher o cabelo que eu quiser e puder ter.
– Nossa. Difícil isso, hein.
– Nem me fale. Muito difícil.
– E como é que você vai fazer?
– Pois é… ainda estou trabalhando as possibilidades. É que, confesso, já quis muito ser Ela também. Você não imagina como eu quis aquela barriga, a perna, a bunda. O cabelo também. Adoro aquele cabelo.
– Nossa… e por que você mudou de idéia? Que estranho…
– É… também acho estranho. Ou achava. Parecia ser bem mais fácil querer ser Ela. Tudo mundo queria. E ainda quer. É que o fácil começou a ficar muito difícil. Fiz tanta coisa para ficar igual a Ela. Você não imagina. Fiz de um tudo. E quase chegava lá. Mas quando estava perto, muito perto, parecia que eu não me obedecia e voltava a ser eu mesma.
– Nossa… que frustrante.
– Nem me fale. Muito frustrante. Eu não queria ser assim, só Eu. Com essa barriga, essa perna, essa bunda e esse cabelo. E tinha muita gente querendo ser Ela e conseguindo ser. E, sério. Eu mesma cheguei perto. Mas a vontade de ficar igual, igualzinha, era tão grande que deve ter me cegado. E aí comecei a correr, assim, atrás do próprio rabo, sem chegar a lugar algum. E aí resolvi me libertar dessa frustração ingrata.
– Puxa. Que coisa. E você conseguiu, então.
– Olha, ainda estou caminhando mas já avancei muito. Só de não querer mais ser Ela ajudou bastante. É que é muito difícil querer tanto ser outra pessoa e não aceitar, assim, sermos nós mesmas. É muito tempo acorrentada a uma ideia fixa. Aí demora um pouco para se libertar de vez. Primeiro são as correntes dos pés. Com eles soltos já dá para caminhar sozinha e escolher algumas trilhas. Nesses anos todos você acaba aprendendo muita coisa e percebe que pode dar o primeiro passo sem nada nos pés te prendendo. Depois tem que soltar as mãos, abrir a jaula e, por fim, fazer um novo pacto.
– Pacto?
– É. Um novo pacto de não querer mais ser Ela e querer ser Livre. E, então, escolher ser Eu.
– Uau! Realmente, escolha difícil essa a sua, hein! Estou chocada.
– É verdade. Essa coisa de ser Eu é complicada, sim. Porque para ser Livre tem que ME aceitar. E Eu não sou muito fácil. E nem tão bonita quanto Ela, nem tão magra, e bunda não tão dura ou empinada. O cabelo, então, é bem diferente. E aí é que é difícil olhar para esse Eu todo e querer ser ele mesmo.
– Então você desistiu de tudo?
– Não! Claro que não! Ser Eu não significa não ser mais nada, ou ser um esculacho. Mas estou aqui aceitando até onde posso ir, dentro do que já sou, sabe. Melhorando aqui, acolá. Aceitando o que dá, o que já é meu.
– Então para você Ela já era?
– Não. Não precisamos radicalizar assim. É que, aqui entre nós, sejamos honestas. É claro que Ela continua com a barriga, perna, bunda e o cabelo incríveis. Mas é que agora escolhi ser mais honesta, ainda, comigo mesma. E aceitar que Ela é fantástica mas é Ela, não Eu.
– Puxa. Boa sorte, então!
– Obrigada!
– Incrível!
– É. Quer dizer, sou. Ou, estou tentando ser.

Quem_voce_quer_ser

Patrícia
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