Ela acorda pela manhã e mergulha na velha rotina: escova os dentes, lava o rosto e faz xixi. Antes de subir na balança tem que fazer xixi. É que para a neurose, xixi pesa.
E não pode ser depois do banho. Tem que ser antes. É que para a neurose, cabelo molhado pesa.
Agora sim, depois do xixi e antes do banho, ela encara aquele pequeno quadrado de metal e vidro que ainda lhe aprisiona. Quem sabe um dia consegue se livrar dele.
Depois vem o espelho. Vira de lado. Checa barriga. Vira de frente e checa a barriga outra vez.
Tem dia que está bom. Poderia estar melhor. Mas está bom.
Hoje não. Hoje não estava. E faz um tempo que já não está tão bom.
Então, com o olhar destemido e a cabeça erguida, vira-se para aquela imagem conhecida e despida no espelho e promete:
“Você vai ver. Vou te mostrar que eu posso, que eu sou capaz. São só três quilos. Afinal, o que são três quilos? Tem quem perde dez, vinte, trinta. São só três e não serão mais meus.”
Hoje é o primeiro dia de mais um novo em que ela jura que, dessa vez, vai conseguir.
“Você vai ver. Sim. Você vai ver a barriga murchar, a perna afinar e caber onde eu quiser. Eu estou no comando. Eu posso, eu consigo. Você vai ver. Sério. Agora é sério. Agora vai.”
Mas a imagem a confunde. Ela fica confusa. E, baixinho, ao pé do ouvido a imagem lhe pergunta.
“Você? Você quem? Eu? Sou só eu que devo ver ou você quer que mais alguém veja?”
Aí ela lembra que não trabalha na TV, que não é artista ou capa de revista. Que é só ela ali de um lado e a imagem do outro. São só elas e ninguém mais.
É verdade que tem o marido também, mas, ao que consta, ele está satisfeito. E de repente lhe ocorre que talvez ele tenha razão. Talvez ela não esteja nada ruim assim. Não deve estar. Com certeza não, mas ainda não está bom o suficiente, para ela ali não está e é o que lhe importa.
Aí ela lembra que já foi pior, é verdade. Muito pior. Foram anos de ponteiro subindo e descendo. Ela se lembra bem. Tinha 14 quando aprendeu pela primeira vez que duas colheres de sopa de arroz tinham 50 calorias. Daí para frente, o conhecimento calórico só aumentou. E o peso também, aumentava, diminuía, aumentava mais um pouco, depois caia.
Era o sobe-e-desce-dos-ponteiros-da-balança da vida de quem vive a contar caloria.
E aí vieram os filhos e, por incrível que pareça e contra as piores previsões, o ponteiro caiu de vez e por ali ficou. Amamentação, meus caros, amamentação é a solução! Quinhentas calorias por dia, assim, fácil, fácil, gostosinho, só no colo com o bebezinho! Quase um milagre na vida de quem vive a contar.
Aí acaba o leite e voltam as contas. E o ponteiro subindo. Foi pouco é verdade, mas subiu. E às vezes desce e sobe. Pouquinho agora. Mas a gangorra continua. E é isso que incomoda, o vai-e-vem que não se mantém.
Ela então, ainda parada ali, despida, olhando de lado, virando de frente, revirando mais uma vez, encara a imagem no fundo dos olhos, firme e decidida a resolver aquela questão de uma vez por todas. Ela grita:
“Para quê continuar com isso tudo, então? Não está bom?”
Talvez esteja mas ela gosta de um pouquinho menos. Gosta da calça larga, da perna que cabe e não se esmaga. A pessoa não é alta, o traço fino ajuda. Alonga. É por isso que três a menos é mais gostoso. Ela acha que fica um pouco mais feliz, mais satisfeita.
Mas quando a problemática parece estar resolvida, eis que a imagem lhe responde. Dedo em riste:
“Cuidado! Muito cuidado! Todo cuidado é pouco. Você pode. Três, você pode. Tudo bem. Não é exagero, tampouco doença. Mas tem que ser você para você. Não para outrem, outros ou pras inimigas. Não para a tal da moda-ditadora-da-magreza-inatingível-aos-reles-mortais que te impõe uma barriga negativa que nunca vai lhe caber ou aquela perna fina e esguia de quem vive da passarela. E pior! Não pode ser para tentar provar que você é melhor porque sua barriga é menor! Viu!?”
Ela, então, assustada com o atrevimento de seu próprio reflexo, mas ciente de que não lhe falta razão, estende-lhe a mão e sela o pacto: “Estamos combinadas, então. É só para mim. Por mim. Porque quero me sentir bem. Porque quero viver saudável. Porque não quero lutar contra você. Porque quero aceita-la e tê-la como aliada dentre tantas outras coisa incríveis que já tenho. Por só isso e tudo isso. Para nós duas aqui e tenho dito!”
Ela, então, satisfeita com o acordo, veste-se, pega o celular, liga o MyFitnessPal e desce para tomar um delicioso e saudável café da manhã, lembrando que hoje à noite tem balada, que ela vai aproveitar com moderação e que gin com tônica zero é o melhor custo-benefício-álcool-calórico da vida!
E da-lhe três quilos….a saga continua!!!! Rsrsrs
KKK Dá-lhe!