Alguma Outra Coisa

Por que não é preciso ter muito amigo?

21/07/2016 • 0 Comentários

Amigo. Tanto já se falou, se aclamou, se homenageou.

Difícil inovar quando o tema é, assim, tão trivial, mas fundamental, visceral. Porque passar por essa vida sem ter um amigo para chamar de seu deve ser igual aquela piada do moço que ficou numa ilha deserta com uma celebridade atraente e, depois de namora-la ardentemente pediu-lhe que fingisse ser um amigo para que pudesse lhe contar o ocorrido. Afinal, não tem a menor graça viver sem ter um amigo para dividir o que sucedeu, para chorar a mágoa quando sofreu, para maldizer a ressaca quando tanto se bebeu, para ouvir que estava errado quando estava mesmo.

E nessa falta de inspiração de se falar alguma coisa que já não tenha sido dita, eis que vem à mente uma cena recente de minha vida que, apesar de tão triste, ficou, de repente, linda e incrivelmente emocionante. A comprovação do que é um amigo, aquele, assim, de corpo, de alma, do coração.

O fato ocorreu quando minha avó faleceu. Foi difícil passar ilesa por seu velório. Não exatamente pela morbidade da situação, porque é a saudade e não corpos vazios de alma que abalam a minha. E naquele dia eu havia pensado em lhe escrever algo. Mas não conseguiria. Seria impossível naquela dor toda da separação acender a chama apagada da inspiração.

E não é que foi logo sua melhor amiga quem quebrou o gelo frio da situação e lhe escreveu, provando que se cônjuges ficam juntos até que a morte os separe, os amigos não se divorciam nunca, mesmo quando um deles foi habitar outra dimensão.

E naquele dia, aquela linda senhorinha, a quem minha avó, carinhosamente, chamava de “minha amiguinha”, chegou no velório, toda arrumadinha. E apesar de ter devastado o coração, trazia um sorriso no rosto e um papelzinho na mão. Depois que o padre fez a oração ela tomou a palavra e toda a atenção e explicou porque continha as lágrimas: é que em vida elas haviam combinado que quando uma se fosse a outra não choraria, porque só lembraria dos momentos de alegria.

Naquela hora desaguamos, era um oceano de emoção tanto pela separação quanto pela prova do que é a tal amizade de verdade.

Bem que minha avó sempre dizia que aquela era sua única amiga. E era mesmo. Porque minha vozinha, apesar de toda a doação e bondade, não era, assim, de abrir facilmente o coração para qualquer amizade.

E então veio a certeza de que naquele conceito estrito de amigo que nos dá abrigo e nos declara o amor mesmo no pior momento da dor, temos e teremos mesmo muito poucos. Deve caber em uma mão aqueles amigos do peito, do fundo profundo do coração, que vai da infância, ou da adolescência, ou do começo da juventude até o caixão. O resto é multidão. Aqueles conhecidos e colegas e conviventes que passam por nossa vida, deliciosamente.

Não serei ingrata, veja bem. Porque a verdade é que não saberia viver sem eles todos para bater papo, dividir a casa, confessar alguma frustração ou decepção. Mas jamais me satisfaria ter a morada lotada em dia de festa se não tivesse ali no meio pelo menos um amigo daquele que te conhece de verdade, na palma da mão, que sempre esteve ali, na vida real e não só na rede social. Sempre. De corpo, quando presente, de alma quando longe, porque nunca esteve ou estará ausente e sempre dará um jeito de estar, mesmo quando algum compromisso o impede de chegar.

Então, de repente vem-me a conclusão da reflexão, a certeza de que minha avó tinha mesmo razão e a vontade de fazer a declaração: quero ter cada vez mais conviventes para preencher a casa em dia de diversão e cada vez menos mas verdadeiros amigos para preencher a alma e o coração, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até o dia em que expirar o último ar da respiração.

por_que_nao_eh_preciso_ter_muito_amigo

Patrícia
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