Alguma Outra Coisa

Por que apoiar o sistema de cotas?

03/08/2017 • 1 Comentário

Hoje vou lhe contar uma história pessoal que poderia me levar a dois caminhos: odiar o sistema de cotas ou continuar apoiando-o.

Os fatos são os mesmos, os dados, os números, idem. O que vai me levar a ir para um lado ou para o outro é a minha percepção do mundo, é como eu o enxergo e aos outros e como me desejo relacionar com eles.
Explico.

A história pessoal é o fato de que, recentemente, prestei o último concurso da Magistratura do Estado de São Paulo e, hoje, tive conhecimento acerca da nota de corte para a segunda fase. Como a reflexão aqui não é acerca de meu desempenho (que, graças à maturidade conquistada pela avançada idade em se embrenhar nessa empreitada, já era esperado) passemos à análise do que importa.

Pois bem. Esse concurso possibilitou a existência de 3 grupos de candidatos destinados: a) à ampla concorrência de vagas, b) às vagas reservadas aos negros (20%), c) às vagas reservadas aos portadores de deficiência (5%).

Para o primeiro grupo a nota de corte foi 19 pontos superior à do segundo grupo. Ademais, verificando as notas dos candidatos do grupo B, percebe-se que apenas 1,5% deles chegariam à nota de corte do grupo A.

E o que isso significa? Depende.

Sim, depende porque essa reflexão não tem nada a ver com análise de dados estatísticos. Mesmo porque, eu e meus pífios conhecimentos na área jamais nos atreveríamos a fazê-lo.

Então, a conjunção “depende” significa que a análise dos dados acima está condicionada à mencionada percepção do mundo, dos outros e de nossa relação com eles.

Afinal, a depender de como se dá essa percepção, eu estaria agora revoltada com o fato de que, se eu pertencesse ao grupo B, teria ficado a apenas 1 ponto da nota de corte, o que me tranquilizaria a alma e me daria calma. Afinal, na próxima prova certamente eu passaria. Mas não. Porque esse maldito sistema de cotas é um absurdo e uma afronta à minha meritocracia. Afinal, como “branca” que sou, restará estudar muito mais do que esses folgados que conseguem estudar menos e passar muito mais facilmente, só porque não tem a cútis clara como a minha. Ademais, eu não tenho nada a ver com a história da escravidão. Sequer era nascida naquela época e, por que raios, agora, mais de 100 anos depois, sou obrigada a pagar pelos erros de meus antepassado?

Ou, se a percepção não for assim tão individualista, mas mais utilitarista, também poderia me revoltar o fato de saber que os cargos públicos serão ocupados por um grupo de pessoas que, se passaram com notas mais baixas é porque, certamente, desempenharão uma função muito menos eficiente que a dessa gente batalhadora e merecedora de seus próprios méritos, que sempre esteve ali presente. Afinal, nessa percepção jamais me ocorreria questionar por que raios o sistema de Justiça é ainda tão ineficiente, mesmo que operado, há tanto tempo e desde sempre, por toda essa mesma gente.

Por outro lado, se minha percepção for outra, eu tomarei esse resultado com um indício enorme de que, de fato, há uma discrepância enorme entre as oportunidades de estudo e formação dos candidatos do grupo A e do B, sendo que pouquíssimos deste último conseguem, mesmo que passando uma infância à base de pedra e luz, fugir do brejo da cruz e da péssima educação infantil, fundamental e média da maioria esmagadora das escolas públicas e, mesmo assim, contra todas as perspectivas, serem grandes vencedores e atingirem, tal qual os candidatos do grupo A, aquela mesma nota de corte.

Essa mesma percepção ainda me levaria a compreender que, sem o sistema de vagas reservadas a uma população que em sua imensa maioria ainda hoje sofre (e muito) os reflexos dos erros de nossos antepassados (e muitos deles ainda bem presentes atualmente), nossos tão almejados cargos públicos continuarão sendo ocupados, em sua imensa maioria, por quem sempre o ocupou.

Essa percepção também me leva a não querer que tudo seja sempre como foi, a não entender como mérito manter os grupos de sempre nos mesmos lugares e os de baixo para quem não consegue, mesmo que em condições adversas, chegar àqueles 1,5% que chegam onde nós chegamos.

Essa percepção também me faz não querer o bom do mundo só para mim e para, quem como eu, estudou onde estudei, batalhou como batalhei e, por isso, vencerá como vencerei. Afinal, se conheço o caminho de meu mérito, desconheço por completo como é atingi-lo sem ter tido o que tive ali no início. E menos ainda como é nunca atingi-lo ainda que tanto tentado e batalhado. E se não conheço não cabe a mim traçar minhas verdades absolutas com base nas minhas pessoais e privilegiadas experiências.

E por fim, essa percepção me traria a enorme satisfação em saber que o sistema de vagas reservadas traz a reflexão de que isonomia é tratar os desiguais desigualmente, na medida de suas desigualdades. E que a tão bajulada bandeira da meritocracia só deve ser levantada para a concorrência entre indivíduos pertencentes a grupos efetiva e materialmente iguais. E que, ainda que isso prejudique o individualismo de meu umbigo ou a suposta racionalidade de meu utilitarismo ele contribui, ao menos um pouco, para se chegar a um tipo de mundo em que eu, verdadeiramente, gostaria de participar. Aquele que não fosse só meu, mas dela, dele e seu.

E, então, qual será sua percepção?

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Imagem: Operários – Tarsila do Amaral


 

Patrícia
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Comentários
  1. peter sowmy - 07/08/17 - 17h05

    …e como seria o julgamento presidido por um juíz que passou com média bem inferior ao que se presume fosse necessária? qual senso de justiça esse juíz teria? seria por cor de epiderme? (não vale para epiderme de matiz vermelha ou amarela ou vale?) isso se falarmos no caso de magistrado e no de magistério, como seria? a lei de newton seria diferente para um japonês, digamos e um nigeriano? laplace valeria sempre ou para os senegaleses é diferente que na frança? quantos teoremas a geometria euclidana teria em angola, menos que 103? a propósito, como disse v.s., eu não era nascido há 128 anos e meus antepassados todos eram asiáticos ocidentais!

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