Arthur Scott

A saga póstuma de Arthur Scott – Prólogo

03/02/2016 • 0 Comentários

Meu nome é Arthur Scott, nasci em São Paulo, Brasil, em 04/04/1980. Morri em Londres, Inglaterra, em 20/03/2015. Conta simples, 34. Dez anos com minha estonteante, ruiva e divertida esposa Alice. Dez meses com meu anjo personificado em filha, Clara.

Definitivamente, a parte árdua de ter um fim, assim, tão cedo, não foi transformar minha festa de 35 anos em um funeral; ou a interrupção – sem falsa modéstia – de meu brilhante trabalho científico; ou deixar os louros, as glórias e os recursos financeiros que um prêmio Nobel invariavelmente lhe proporciona. O difícil, meu caro, foi deixar minhas meninas. Foi deixar uma vida arrancada, assim, sem qualquer cerimônia, quando se chega ao ápice do que alguns chamam ‘felicidade plena’.

E aí as pessoas têm essa mania de divagar sobre a morte. Lamenta-se quase que unicamente por aqueles que ficam. Claro, seria, no mínimo, irresponsável e insensível deixar de imaginar o quanto a família e os amigos sofrem com a irreversível ausência de quem vai.

E esse aí que foi? O que lhe resta? O breu do fim da vida que ali se extingue para quem em nada crê? Uma vida pós morte, para quem acredita nela?

Ainda que eu fosse um sujeito de grande fé, qualquer vida ou tipo de vida pós morte não traria de volta aquela que tive. Não há crença nesse mundo, seja católica, espírita, budista, protestante ou islâmica, o que for, não há crença ou mesmo a total falta dela que afaste a única certeza que vem junto com a morte: jamais terá de volta a exata vida que se tinha, caro amigo. Jamais.

Pode ser que se encontre anjos no Céu, capetas no Inferno ou almas perdidas no Purgatório. Pode ser que volte em alguma outra época, reencarnado em uma outra história. Pode ser que apenas se acabe e nada mais. Aí depende do que se crê. Mas a sua vida, essa aí que tem agora, esquece. Essa acaba e fim.

Acho que nunca lidei bem com isso. Não devo ter aceitado, mesmo. Achei que o tivesse. Ledo engano.

Talvez isso justifique o que fiz.

Veja, nunca fui um homem de infringir regras. Mas dessa vez foi irresistível.

Arthur_Scott_Prologo

(Imagem: filme “Ida”)

Patrícia
< Anterior
Próximo >
Comente pelo Facebook
Escreva seu comentário
<Voltar para a home>