Arthur Scott

A Saga Póstuma de Arthur Scott – Capítulo 2

27/02/2016 • 0 Comentários

12/01/2015, Londres, Inglaterra

– Um expresso e um pint de Guinnes, por favor. – peço à garçonete.

São dez horas da manhã. Não me ocorre nada mais adequado. Não faço ideia, na verdade, da razão pela qual optei por um pub e não um café para entrar a essa hora. Sinto-me estúpido mas agora já estou aqui. Pronto.

– Ok. E o senhor vai pedir alguma coisa da cozinha? Ainda não iniciamos os serviços do almoço mas já dá para arrumar alguma coisa para beliscar, sabe? – a garçonete questiona, sem conseguir disfarçar o olhar curioso de quem se surpreende ao ver alguém se valer de cafeína e álcool a essa hora da manhã, em plena segunda-feira. Não deve ter experiência no ofício.

– Só isso mesmo, por favor. – minha resposta é rápida e quase ríspida, evitando qualquer outra sugestão gastronômica. Não tenho fome, não tenho sede. Sequer sei porque pedi alguma coisa ou porque estou aqui.

– Certo. Desculpe mas, eu não conheço o senhor de algum lugar? – e ela cai na inconveniência padrão de alguns. Depois do Nobel passei a quase me acostumar a ser reconhecido. Mas hoje, não. Hoje não consigo. Não é possível. Gostaria que fosse, mas não.

– Não me lembro de conhecê-la e, desculpe-me mas estou com um pouco de pressa. – não consigo disfarçar a vontade de vê-la longe.

Ela percebe e parte rápido em direção ao bar. Quase me arrependo do excesso de rispidez que dispensei à moça, mas a lembrança das minhas últimas duas horas antes de entrar nesse pub e a insólita conversa que se seguiu naquele tempo me faz esquecer a grosseria.

 

Insólito. Seria essa uma boa palavra para o que ouvi há pouco? Não sei. Sou incapaz de definir com qualquer adjetivo. Talvez porque ainda não acredito no que me foi dito. Não acredito que foi comigo. Mas foi. É.

“Sinto muito Arthur, colocar assim, tão aberto e francamente o resultado de seus exames e sua condição. Há pacientes que são, de certa forma, poupados da realidade de seus diagnósticos e prognóstico, mas sabemos que o pouco que eu lhe contasse seria suficiente para que você, em breve tempo e com rápida pesquisa chegasse aos detalhes dessa doença.” Disse-me Dr. Finch em um misto tom de firmeza, franqueza e compaixão.

Não o culpo pela sinceridade e objetividade. Dr. Finch é um médico absolutamente experiente e já me conhece tempo suficiente para sabe que, como pesquisador, objetividade é algo sem a qual não sobrevivo. E saber que, de fato, essa minha sobrevivência não perduraria por muito tempo, avassalar-me-ia independente da forma como isso fosse dito. Talvez se com rodeios e meias palavras seria pior.

Mas fato é que, a tomografia e a ressonância às quais havia me submetido nos últimos dois meses não deixavam dúvidas, minhas últimas e agonizantes enxaquecas não eram fruto da tensão e ansiedade usuais que acometem metade do globo. Eram sintomas de um raro, cruel e impiedoso tumor, que, em algum momento incerto mas muito próximo, tiraria a minha vida.

Há alguns anos, o diagnóstico de um câncer era uma sentença certa de morte. Como se amaldiçoado o diagnosticado estivesse, lembro-me que minha bisavó e outros tantos antigos sequer pronunciavam-lhe o nome, tratando-o como “aquela doença”. Curiosamente a minha parecia ter um nome pior do que o antigamente temido: Glioblastoma multiforme. Ou GBM, para os íntimos.

E se hoje se convive com o fato de que não necessariamente um tumor tirará a vida de alguém. Esse não é o meu caso. Meu tumor não é só maligno, é traiçoeiro. Por algum tempo que mesmo a vasta sabedoria de Dr. Finch não conseguiu precisar, essas pequenas células geneticamente desgovernadas assintomática e silenciosamente tomaram meu cérebro e, só recentemente, depois de enxaquecas terríveis, resolveram se apresentar assim sem cerimônia. Impiedosas, anunciaram-se no momento em que nada mais será possível fazer para contê-las ou, de alguma forma, freá-las.

 

– Senhor, seu pedido. – estou tão absorto nas últimas palavras de Dr. Finch que não percebo a garçonete quase derrubar em meu colo o café quente e a Guinnes fria.

– Obrigado. – lanço-lhe um pequeno esboço de sorriso, suficiente para desencorajá-la a confirmar se, realmente, já não havíamos nos visto antes. Mas sou rápido o suficiente para lhe desviar o olhar e dar um bom gole na Guinnes, como se não ingerisse qualquer líquido há dias.

A garçonete recua e retorno à recente lembrança desse terrível e fatídico começo de manhã.

Definitivamente, por mais que a única certeza que se tem na vida seja o fato de que ela um dia terminará, não se está nunca preparado para isso. E eu, aos 34 anos, estou menos preparado ainda para morrer e a qualquer momento.

 

“Quanto tempo, doutor?” – ainda tentando me equilibrar na cadeira apoiada no chão que me faltava, perguntei instintivamente e sem receio de parecer repetir a primeira dúvida de qualquer pessoa que passa ou tenha passado por situação semelhante à minha.

“Arthur, devo lhe ser absolutamente franco. Receio que não há equação capaz de alcançar com precisão esse dado, ainda que saibamos o quanto você conhece e é capaz de trabalhar com os números.” Respondeu após levantar de sua cadeira e dirigir-se a mim, sentando-se ao meu lado. Seu olhar era tão óbvio quanto o pouco tempo que me restava. Seja lá qual fosse.

O tom e a certeza de Dr. Finch eram tão sinceros que ele mesmo transpareceu incrédulo e transtornado com a desproporção entre o volume do tumor e a falta de qualquer sintoma que pudesse tê-lo anunciado um pouco mais precocemente. Não que isso fosse salvar a minha vida. Dr. Finch deixou muito claro que eu jamais venceria essa guerra. Mas talvez a descoberta meses antes teria me concedido algumas batalhas e, quem sabe, a possibilidade de viver um pouco mais.

Agora, restavam-me apenas alguns tratamentos paliativos, alguma coisa que me aliviasse a dor, até que todo o meu cérebro fosse tomado e meu corpo sucumbisse.

Aprender a conviver com o fato de que, sim, eu morrerei, mas a qualquer momento e em breve, é minha primeira tarefa depois da notícia que acabara de receber. E algo me diz que não lograrei êxito em cumpri-la.

 

– Algo mais, senhor? – a garçonete novamente me pega de surpresa, quase me fazendo babar os últimos goles de café sobre o peito.

Penso que outro pint de Guinnes não descerá bem, mesmo porque, se já havia apreciado alguns pints de algumas Guinnes até aquele momento, nunca o fiz para afogar qualquer mágoa e, agora, jamais o faria para tentar esquecer meu iminente fim.

– Mais um expresso e a conta, por favor. – ainda não encontro força ou ânimo para sair dali, talvez mais um café ajude, ainda que tenha que me submeter aos investidos olhares da garçonete que, certamente, não está convencida de que eu não lhe sou conhecido.

Enquanto ela se desloca ao balcão do bar, em direção à máquina do café, reparo o quanto ela é bem jovem. Vinte e bem poucos anos. Até que é habilidosa com o café. Silenciosamente encaixa com precisão o grupo de extração na máquina depois de comprimir o pó. Talvez ela não seja tão inexperiente quanto pareceu há pouco. Não fosse minha apatia pela tragédia que de repente se torna minha agora curta vida, poderia reparar melhor em seu corpo. É bonita, até. Deve ter um namorado. Marido não. Ainda é nova. Filhos. Não, ela não deve ter filhos, ainda não.

Sem perceber sinto o peso de meus olhos. Eles enchem rápido ao pensar na minha filha. Meu pequeno anjo louro de 9 meses. Muito nova. Não vou ter tempo. Impossível. E mesmo que tivesse, como ela compreenderia tudo que planejei lhe transmitir. Meus pilares, meus valores mais profundos sucumbirão comigo. Havia tanto a lhe ensinar, a lhe mostrar…

Apesar de físico pesquisador e todo o estigma que minha profissão carrega, nunca conduzi minha vida pessoal com a mesma objetividade com a qual toco com meus projetos de pesquisa. Essa sempre foi minha grande dicotomia e a verdade é que me divirto com a habilidade que tenho para programar esses projetos em planilhas e gráficos e passar horas a fio discutindo a subjetividade do mundo e de suas questões.

Mas nesse exato momento não consigo digerir o fato de que vou morrer muito antes do que desejei ou imaginei e, nessa grande e sem graça peça que minha curta vida me prega, deixarei aqui uma pequena criança sem o pai.

E se desde que ela nasceu pariu comigo um medo de morrer, agora, irônica ou tragicamente, o que era pavor virou presságio ou talvez o medo não fosse a melhor definição do que começo a sentir. Pensar que não mais verei minha filha crescendo fisgou meu estômago que, sem perceber, faz-me curvar sobre a mesa apoiando-me sobre meus braços, enterrando minha cabeça ali, na certeza de que essa é a maior dor que já senti.

– O senhor está bem? Precisa de alguma coisa? – a garçonete corre em minha direção. A dor de minhas vísceras deve ter transparecido de alguma forma sobre o meu corpo. Suas mãos apoiam sobre meu braço oferecendo algum apoio.

Percebo que não consigo mais esconder com discrição a minha tragédia, desculpo-me por assustar-lhe e quase quebrar-lhe a xícara de café. Ajeito-a sobre a mesa. Deixo apressadamente vinte libras ou mais – não me recordo –, e parto o mais rápido possível daquele pub e de uma surpresa garçonete que, certamente, àquela altura, já me reconheceu.

Meu carro está parado a um quarteirão dali mas acho mais prudente caminhar um pouco. Não. Definitivamente não tenho qualquer condição de dirigir. Resta muito pouco da minha vida para terminá-la ainda mais fugazmente, em algum acidente de carro. Decido caminhar um pouco pelas margens do Tâmisa. O frio do inverno deu um trégua nesse fim de manhã. Não o suficiente para acalmar meu gélido peito.

Volto a pensar em Clara e mesmo em Alice. Sei que não as deixarei desamparadas, seja em que sentido essa palavra caiba. Ser laureado por um Nobel de Física nos deixou em uma situação financeira bem confortável.

Nobel de Física, Glioblastoma multiforme… Inevitável pensar na ironia da avassaladora notícia que havia recebido há pouco.

Desde muito pequeno já sabia que passaria a vida tentando descobrir algo sobre alguma coisa. Naquele tempo não imaginava que a física, mais precisamente a quântica, guiaria minha vida e, menos ainda, que meus projetos, desde a iniciação científica na faculdade, culminariam em um prêmio Nobel. Lembro que, ao receber a primeira correspondência da Academia Real das Ciências da Suécia, informando que minhas recentes descobertas sobre a efetiva existência do Qualix estavam sendo estudadas pela comissão julgadora, fiquei atônito por alguns minutos.

Sempre soube que meus estudos eram ambiciosos demais, mas jamais imaginaria que chegassem a esse nível na comunidade pesquisadora. E chegaram, e veio o prêmio, e veio a divulgação internacional e a interessante sensação do reconhecimento que isso me trouxe perante pessoas que sequer notariam minha existência não fosse a do Qualix. Sem dúvida, àquela altura a comunidade científica já reconhecia meu nome, por meio de trabalhos anteriormente publicados, mas um Nobel me tornou praticamente uma celebridade internacional. E, claro, financeiramente me permitiria continuar confortável e quase ilimitadamente minhas pesquisas.

Mas no fundo, jamais esperava chegar a tanto, mas cheguei e, quando estou ainda colhendo os recentes frutos dessa incrível e precoce conquista, recebo a notícia de que ela terminaria tão efemeramente quanto se iniciou.

Mas apesar de minha vida profissional ter direcionado a vida de minha família nos últimos anos, é nela que está o epicentro da minha angústia.

Nessa altura do raciocínio ou falta dele, não consigo evitar a mórbida imagem de alguma manchete citando o precoce fim de um dos mais jovens sujeitos a ganhar um Nobel de física. Mas a verdade é que a comunidade científica saberá bem o que fazer sem a minha mão na condução dos meus projetos. Eles estavam aí e qualquer novo curioso crônico como eu poderá me suceder. A minha própria equipe está plenamente apta a continuar os trabalhos. Minha ausência não causará grandes prejuízos nesse sentido. Mesmo porque, minha ambição profissional nunca me fez acreditar que eu seria insubstituível, mas para a minha família, serei.

Ao pensar nela, sinto um nó no estômago, como se ele tivesse sido abruptamente torcido. Sinto ali uma fisgada dolorida ao ver a mórbida imagem de Clara com algum vestido preto, ao lado de uma caixa escura e fria, apoiada em algum suporte de prata.

Parece estranho mas alivia-me um pouco o fato de ser eu o pai que partirá, mantendo-lhe a mãe. Alice é incrível e como mãe não fará por menos. Esses 9 meses já mostram bem o que estaria por vir. Não tenho dúvidas que elas ficarão bem em algum momento, ainda que levasse tempo para amenizar a dor e colocar a vida em frente.

A morte é sempre dolorida para os filhos, mas é a ordem natural. Parece certo e organizado o fato de que perderemos nossos pais um dia. Mas imaginar que minha pequena criança terá de aprender isso tão cedo soa-me, no mínimo, cruel.

E, de repente, o que parecia um nó no estômago vira um emaranhado de fisgadas, como se cada alça fosse perfurada por um punhal grosso e afiado cortando-lhe ao meio. Lembrei de meus pais.

Perder os pais pode ser o esperado natural, mas perder um filho, nunca. E não há idade que amenize essa desgraça. “Um dia você terá seus filhos, Arthur, e vai me entender.” Posso ouvir sem interferências o raivoso clamor de minha mãe cada vez que eu esquecia de lhe telefonar quando chegava de alguma viagem. Sinto agora no estômago, no peito, na alma o amargo e injusto sofrimento, a dor incurável e irremediável que minha morte lhes causará.

Não estou mais incrédulo ou perdido. Agora, uma onda de fúria e revolta toma-me conta.

Não é justo. Por quê? Por que minha vida vai ser interrompida assim? Por que minha mulher e minha filha terão sua família mutilada? Por que minha mãe e meu pai precisarão perder seu único filho?

Sinto que grito por dentro. Não é justo! Não sou qualquer exemplo da perfeição. Aliás, longe disso. Mas reconheço-me, sim, como alguém que busca o tipo de boa ação e solicitude. Que procura deixar o instintivo egoísmo humano de lado, buscando acolher quem de mim precisa ou não. Que tenta agir pensando naquilo que é correto, ainda que o conceito seja um tanto relativo. Assim sempre me guiei. E, agora, parece-me tudo em vão.

Câncer! Um desgraçado de um câncer maldito, escondido sabe-se lá por quanto tempo dentro da minha cabeça. Esperando o momento certo de dar o bote, esperando o tempo certo de crescer a ponto de ser invencível. Um tumor estúpido que não escolhe mais idade, grupo de risco, grupo de qualquer coisa que pudesse justificar algum erro imperdoável que eu tivesse cometido na vida, com o meu corpo. Nunca fumei, já bebi, já me embriaguei algumas vezes mas nunca a ponto de causar qualquer dano à minha saúde. Há anos tenho uma alimentação regrada, corro com frequência, esquio no inverno, surfo no verão. Sou quase um atleta amador. E me aparece um tumor desse jeito, desse tamanho!

Por quê?! Doença desgraçada, câncer estúpido, ciência esdrúxula, cientista inútil que descobre a menor partícula da matéria e sabe-se lá o que se vai fazer com isso e não consegue descobrir a cura para uma coisa dessa.

Tenho muito a fazer, a pesquisar, a conhecer, a aprender, a dividir, a sofrer, a sorrir, a viver. Quero ver minha menina crescendo, aprendendo, escolhendo, errando, acertando. Quero ensiná-la o que já sei e me surpreender aprendendo muito mais com ela própria. Quero ter outra. Ou outras, ou outros filhos. Quero levá-la ao altar, quero dar-lhe o que não tive, quero netos. Quero viajar com minha mulher. Quero mergulhar, saltar de para quedas, esquiar mais, surfar mais, navegar, voar. Quero tanto e tanto planejei e tudo me será tirado assim, sem qualquer defesa, sem qualquer perdão, sem qualquer chance.

Não é justo e já não sei mais o que significa a justiça que sempre preguei.

Penso nas pessoas divagando sobre a morte e lamentando-se por aqueles que ficam. Sim, eu sei ou talvez possa ao menos imaginar o quanto minha família e meus amigos sofrerão com minha ausência, mas e quanto a mim?

Jamais duvidarei que, na escala de todas as dores, a perda de um filho vem em primeiro lugar. Mas meus pais ainda terão o sorriso de minha filha e talvez isso lhes dê a grande força que precisarão para continuar. Talvez eles próprios conseguirão voltar a sorrir um riso sincero a cada conquista da neta. Alice também terá em Clara a força para caminhar. E ainda que pensar nisso me corte o peito, em algum momento Alice terá alguém ao seu lado. Uma mulher linda, divertida, inteligente e jovem viúva não vai ficará só por muito tempo.

E a mim? O que me restará? O breu do fim da vida? Uma vida pós morte? Será que posso crer nisso? Mas não me importo. Ainda que eu fosse um sujeito de grande fé, qualquer vida ou tipo de vida pós morte não trará de volta a vida que tenho hoje. Não há crença nesse mundo, católica, espírita, budista, protestante, islâmica, o que for, não há crença ou mesmo a total falta dela que me afaste da única certeza que tenho nesse momento: vou morrer em breve e jamais terei de volta a vida que hoje vivo. Não quero, não posso, não aceito.

Já não sei para que lado do Tâmisa estou andando. Não faço idéia se estou indo em direção à City ou Southwark. Acabo de passar por alguma ponte que pode ser a Tower Bridge ou a Westminster. Lembro-me de Deus. E isso me revolta. Sinto angústia, abandono e desamparo. “Por que, Deus?”.

Não pude evitar a pergunta. Ainda que saiba que, ao menos nesse momento, não terei qualquer resposta.

Não sei para que lado fica o Big Ben.

Encontro um banco qualquer e sento-me. As mãos sobre a cabeça que quase se afunda no meu colo e choro como nunca lembrei tê-lo feito em 34 anos.

Arthur_Scott_capitulo_3

Patrícia
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