Arthur Scott

A saga póstuma de Arthur Scott – Capítulo 1

13/02/2016 • 2 Comentários

12/12/14 – Estocolmo, Suécia

O Audi Q7 preto estaciona em frente ao majestoso Concert Hall. É um belo carro, inegavelmente. Duvido um pouco se eu próprio o teria. Não, não teria. Convenhamos, combina bem pouco com meu estilo, se é que tenho algum. Exceto hoje, claro. Hoje talvez eu, assim, de smoking preto, camisa branca, devo combinar com o Q7. Não gostei muito dessa gravata borboleta branca mas não pude deixar de seguir o tal rígido dress code exigido para o evento.

Ainda não sei como Alice conseguiu me convencer a gastar 1,200 euros em uns pedaços de pano que, dificilmente, voltarei a usar. “É um Armani Arthur! Um Armani!”. Ok, Sr. Armani, confesso, deixei-me levar pela ocasião mesmo. É que Q7, Concert Hall e smoking devem fazer sentido hoje. Ainda assim, inevitável pensar o quanto isso tudo ainda não me faz tanto sentido. A ficha ainda não caiu, deve ser isso.

Antes da porta do carro se abrir Alice aperta minha mão e me fita quase séria. Seus olhos azuis brilham mais essa noite:
– Pronto, Arthur? – ela sorri enquanto pergunta. Isso realmente me distrai. Ela me distrai. Ele é bonita, linda, sempre foi. Mas hoje ela se superou.

Quando a vi pronta antes de sairmos do hotel não achei muito adequado lhe dizer que hoje ela foi capaz de me tirar mais fôlego do que no dia de nosso casamento. Lembrei-me disso mais uma vez agora. Não entendo absolutamente nada de moda, mas esse vestido azul escuro por qualquer razão iluminava ainda mais seus olhos quase da mesma cor, um pouco mais claros e bem mais brilhantes. Seu cabelo ruivo, normalmente mais liso e, hoje, desenhado em pequenas ondas que caiam até quase a metade das costas também se destacava por ali. O vestido era bonito mesmo, inteiro de rendas sobre um fundo claro. Nude, segundo ela. Não é muito justo. O suficiente para contornar seu corpo perfeitamente esculpido em 1,70m de altura. Mangas longas mas sem forro nos braços, o que deixa à vista sua pele clara. Minha mulher hoje está, realmente, estonteante. Se a noite, de certa forma, era minha, não tenho dúvidas que os holofotes serão dela.

– Acho difícil alguém reparar em mim com você assim, do meu lado, Lice. – sussurrei no seu ouvido, impedindo que o motorista nos ouvisse. – Bom, tenho que estar pronto, não é? – suspirei.

Não. Eu não estava pronto. Aquilo tudo era, no mínimo, surreal.

Já estive em Estocolmo há alguns anos como turista mochileiro, já tinha entrado no Concert Hall que, naquela ocasião, era apenas um ponto turístico. Jamais imaginaria que retornaria para uma cerimônia de entrega de um prêmio Nobel. Menos ainda que fosse eu a recebê-lo.

Abro a porta do Q7 e, realmente, entendo a dimensão de onde estou e quem acabei me tornando. Inevitável não pensar na imagem de celebridades hollywoodianas chegando para a entrega de um Oscar. Exceto pela falta do tapete vermelho a ocasião ali era bem isso. Com a diferença de que era eu uma das celebridades. Justo eu que sempre me mantive à sombra de qualquer holofote durante meus últimos anos de pesquisa. Concedi várias entrevistas, é verdade. Inúmeras palestras e aulas também, mas tudo sempre restrito à comunidade científica. Isso aqui era, realmente, novidade. Ao menos a proporção disso.

Sem dúvida a minha anonimidade começou a perder forças no ano passado, quando Peter Higgs e François Englert ganharam o Nobel de Física por terem comprovado a existência do Bóson de Higgs. Eles vinham trabalhando na teoria dessa existência há mais de 50 anos, mas, de fato, com a efetiva descoberta da “partícula de Deus” a minha própria pesquisa tomou um rumo incrível e, se a comunidade científica já me conhecia há alguns anos, o mundo leigo passou a se interessar mais por meu trabalho. Mas por mais que já estivesse me acostumando nos últimos meses com entrevistas quase semanais sobre meus projetos, algumas sobre minha própria vida, isso aqui realmente é assustador e, de certa forma, inimaginável durante a fase em que eu era, apenas, Arthur Scott, o físico.

Na verdade minha vida profissional carrega outros tantos títulos: livre docente pela Faculdade de Ciências Físicas de Cambrigde, Coordenador do Grupo de Estudo de Menores Partículas associado ao CERN, professor titular da cadeira de Física Quântica em Cambrigde, diretor-presidente da SLab (meu próprio laboratório de pesquisa), dentre alguns outros.
Mas o fato é que até ser indicado ao Nobel de Física de 2014 eu realmente era apenas Arthur Scott da comunidade científica.

Sempre acreditei em minhas pesquisas, em minhas teses, sempre compreendi que talvez eu fosse muito novo ainda para carregar todos esses títulos – meus grandes mestres e inspiradores têm algumas décadas além dos meus 34 anos. Mas o que realmente não esperava ou, talvez, sequer passava por minha cabeça, era chegar a ter uma notoriedade mundial como vem ocorrendo nos últimos meses.

Alice sempre acompanhou meu crescimento profissional de uma forma incrivelmente serena. A verdade é que ela sempre foi o grande alicerce que me manteve e – agora mais do que nunca – mantém-me no chão. Mas nem essa serenidade toda foi capaz de me desviar da clara constatação de que as entrevistas frequentes em revistas e alguns canais de TV ainda não haviam me assustado ou mostrado a real repercussão do meu trabalho e de minha nova posição no mundo, como hoje.

Tão logo saí do carro, dando as mãos à Alice para lhe ajudar a descer a pequena altura do Q7 até o chão, percebi que do lugar onde o carro estacionou, ao meio-fio da calçada, até a pequena escadaria na entrada do Concert Hall havia um corredor de, mais ou menos, 10 metros de largura. Cordões amarelos sustentados por barras pretas alinhavam-se simetricamente, delimitando-o. Do lado de fora, formando outro corredor, dessa vez humano, diversos fotógrafos e uma pequena multidão quase organizada, margeava os cordões. Alguns tinham credenciais, vários com máquinas fotográficas, câmeras e luzes, outros pareciam, simplesmente, curiosos, pessoas comuns que estavam ali aproveitando o evento.

Senti os feixes dos flashes de 10 ou 15 fotógrafos. Ou mais, talvez. Olhei para Alice tentando imaginar que era ela a razão daquilo tudo. Certamente, ao ver essa mulher descendo assim de um belo carro, soltando a barra do vestido que, discreta e propositalmente, arrastava-se pelo chão, as atenções deveriam ser desviadas a ela. Incrível como ela parece confortável nessa situação. Sei que ali dentro seu coração deve palpitar mais do que em nossas melhores corridas matinais, mas impressionante a sua capacidade de esconder esse pequeno segredo. Já eu, não. Certamente minha feição não esconde o nervosismo, timidez e quiçá, um certo deslumbramento infantil com aquilo tudo. De repente e contra qualquer previsão que um dia eu pudesse ter sobre mim mesmo, virei uma celebridade.

Começamos a caminhar pelo corredor em direção aos primeiros degraus da entrada do Concert Hall. Distraio-me um pouco daquela saraivada de flashes olhando a fachada incrível do prédio que, naquela noite, conta com cada uma das 10 gigantescas pilastras dispostas paralelamente uma ao lado da outra, iluminada por um enorme refletor.

Demoro a perceber que durante o pequeno trajeto ouço meu nome por todos os lados.
– Sr. Scott, Sr. Scott olhe à direita.
– Sr. Scott desse lado por favor.
– Sr. Scott um foto aqui à esquerda, por favor.

Tento atender aos pedidos, Alice me acompanha também tentando acompanhar os chamados, ora para esquerda, ora para a direita, ora ao centro.

– Sra. Scott de onde é seu vestido? – grita uma fotógrafa ao nosso lado direito. Há uma credencial indicando o nome de alguma revista que, certamente, não veicula artigos científicos.

Alice sorri para mim, levantando um poucos os ombros, surpresa pela pergunta, digamos, fora do contexto.
– É, é um Elie Saab… – ela responde segurando mais firme em minhas mãos, confirmando minha boa percepção sobre seus batimentos cardíacos. – Caramba, Tato, não imaginei que seria assim. – ela sussurra em meu ouvido.

– Nem eu. Vamos mais rápido antes que não saiba mais o que fazer com meus próprios pés e tropece aqui no meio da mídia mundial. – sussurro de volta. Minha confissão a faz sorrir discretamente, seus batimentos devem ter dado uma pequena trégua.

– Anne, que bom vê-la! – a cerimonialista que vinha me preparando para a noite finalmente nos encontra e vem em nossa direção, salvando-nos.

– Sr. Scott, Sra. Scott boa noite! Creio que os fotógrafos já devem ter explorado todos os seus ângulos! Venham por aqui, por favor. – ela nos conduz até a entrada principal. Seguimos sua orientação e ainda posso ouvir um “Sr. Scott, boa cerimônia!”. Aceno em agradecimento, sem saber ao certo para qual direção.

Ao entrarmos no Concert Hall Anne nos acompanha instruindo-nos a que direção tomar, quem cumprimentar e quais outros fotógrafos e jornalistas atender.

Acredito terem se passado uns vinte ou trinta minutos de fotos e rápidas entrevistas quando Anne nos conduz a uma sala de entrada restrita, somente aos que serão laureados pelo Nobel naquela noite, sequer à Alice é permitida a entrada e outra cerimonialista a acompanha para onde estão nossos pais e um pequeníssimo grupo de amigos que puderam ser convidados.

– Boa sorte, fique tranquilo, você está lindo e correrei um risco enorme de perdê-lo para a Rainha Silvia quando ela lhe entregar o prêmio. – Alice sussurra ao meu ouvido, beijando-me discretamente.

– Sinto que desapontarei Sua Majestade, dado que meu coração foi aprisionado por uma ruiva estonteante que já tem meu reinado. – respondo a brincadeira à altura. Nós dois rimos das bobagens ditas e ela parte acompanhando a outra cerimonialista.

Surreal talvez seja uma boa palavra para descrever o que estou vivendo nessa noite. Veja, sempre fui um sujeito absolutamente comum, ordinário, padrão, com um único destaque em relação à minha percepção sobre o funcionamento das coisas, o que me despertou, desde os primórdios do colégio, para as ciências, no começo só a física e, mais adiante, a quântica. Tirando essa, digamos, facilidade em compreender esse tipo de assunto, o que, certamente, conferiu-me um destaque em termos acadêmicos, sempre mantive-me como um sujeito comum.

Nasci em São Paulo e ali fiquei até o fim do ensino médio (saudoso “colegial”, na minha época) quando meu pai convenceu-me que eu deveria me valer de minha segunda cidadania (a britânica, herdada dele), para estudar Ciências Físicas em Cambridge. De fato, não poderia desenvolver minha formação profissional em outro lugar.

Conheci Alice em 2004, quando desfrutava de merecidas e quentes férias no Brasil. As mulheres inglesas são lindas, elegantes, educadas, mas não teve jeito, metade de meu sangue brasileiro, herdado de minha mãe, sambou mais forte e, ao conhecer aquela ruiva de olhos azuis e corpo escultural, levemente embriagada e dançando desengonçadamente uma marchinha de carnaval do Bloco do Cordão do Bola Preta, no Centro do Rio, não resisti. Não resisto até hoje, é bem verdade.

Ela tinha acabado de se formar em jornalismo e logo conseguiu uma especialização em Londres. Encontrava-mos aos finais de semana e logo ela conseguiu um estágio na BBC. Mas quando fui chamado para trabalhar em Meyrin, perto de Genebra, no CERN, tive a desculpa perfeita para a pedir em casamento.

Ficamos em Meyrin até 2009. Trabalhar no CERN foi fundamental para desenvolver minhas pesquisas em relação ao Qualix.
Ah sim! Eu sou apenas um sujeito comum, mas o Qualix não. Ele é o protagonista. A noite é dele e para ele. Sim, admito, talvez sem mim o Qualix não passaria de uma teoria, como o era Bóson de Higgs, mas o Nobel é para ele, sou apenas seu instrumento.

Quando comecei a trabalhar com o LHC, ele ainda era o maior operador de partículas do mundo. Graças a ele e ao incrível trabalho de meus mestres dignamente laureados no Nobel do ano passado foi possível demonstrar a existência de Bóson de Higgs. Na verdade nunca duvidamos dessa existência, mas o mundo precisava de provas.

Nunca contestei o fato de que o Bóson de Higgs seria a partícula elementar que daria massa a todas as outras. Mas minhas equações indicavam que ela ainda não seria a menor unidade de matéria existente. É verdade que somente em julho de 2012 a equipe do CERN anunciou a detecção de uma partícula, até então desconhecida, com massa entre 125 e 127 GeV/c2 e, apenas em março de 2013, confirmaram que ela possuía paridade positiva e spin nulo, características fundamentais que a definiriam mesmo como um Bóson de Higgs.

Mas como há muitos anos minha tese de mestrado, doutorado e livre docência tentavam comprovar a existência de uma unidade ainda menor que Bóson de Higgs, desde que comecei a trabalhar no CERN e, mesmo quando deixei a unidade diariamente e me foi permitido manter a minha equipe em campo enquanto eu desenvolvia meus projetos acadêmicos em Cambrigde e em meu próprio laboratório de pesquisa em Londres, conseguíamos trabalhar no LHC de forma quase independente.

Com as evidências sobre o Bóson de Higgs devidamente comprovadas, minha tese alcançou uma maior visibilidade no circuito científico e o Projeto Qualix ganhou novos rumos. As verbas de pesquisa aumentaram sobremaneira, o que nos possibilitou mais espaço no LHC.

Sempre defendi que precisaríamos aumentar a carga de energia do acelerador para que as colisões das partículas fossem mais catastróficas, em termos quânticos.

E foi, então, seis meses depois da confirmação de Higgs que detectamos o Qualix, com um terço da massa de Higgs e a mesma paridade positiva e spin nulo que, de tão pequeno já roubava o título que Higgs levou por tantas décadas. Não seria mais ele a menor partícula existente. Meu pequeno e incrível Qualix levava agora os louros dessa fama.

– Sr. Scott, pronto? – O chamado de Anne desperta-me do rápido sumário de toda a minha trajetória científica que era projetada ali na minha memória.

Hora de voltar à realidade Sr. Scott, há um Nobel à sua espera.

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Patrícia
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Comentários
  1. ana christina - 13/02/16 - 12h08

    Super profissional!!!! Enquanto estava lendo me pareceu estar com um livro de grande escritor nas mãos. Vc tem futuro nessa área. Não o desperdice….bjs

    • Patrícia - 14/02/16 - 10h35

      Querida… obrigada pela opinião, pelo apoio, pelo carinho… bjo bjo buo

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